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Descontinuidade: Uma doença crônica de nossos governos

Atualizado: 17 de set. de 2021



Vivi na pele o problema da constante alternância política em cargos de alta gestão do Governo do Rio e resolvi procurar mais sobre esse tema para entender até que ponto isso atrapalha (ou não) na execução das políticas pública como um todo.


De forma geral, a alternância no poder é um conceito diretamente ligado à nossa democracia, que tem em seu fundamento a renovação dos dirigentes políticos responsáveis pelas gestões governamentais, que chegam nesses cargos através do processo eleitoral. Os eleitos no poder executivo, por sua vez, precisam montar o seu corpo técnico, contendo as indicações para os cargos de confiança tanto para alta gestão (secretários) quanto para os cargos mais inferiores em nível de responsabilidades a atribuições (subsecretários, coordenadores, assessores, analistas etc.). Nesse ponto, acho super saudável essas alterações.


Pelo processo eleitoral temos essa mudança de 4 em 4 anos, podendo o mesmo candidato ser eleito por mais uma única vez, tendo no máximo 8 anos de gestão.


Já sobre o ponto de vista dos cargos de confiança, há total liberdade para a troca em qualquer momento e essas trocas podem seguir critérios técnicos ou políticos. É sobre essa última questão que eu gostaria de me debruçar mais.


O que eu já vi acontecendo na prática:


Geralmente, uma nova gestão não gosta de dar continuidade aos projetos passados por mera questão de ego político. Muitos acreditam que manter as políticas passadas irá passar uma imagem que que seu governo não está fazendo algo de novo e nem tem uma marca própria. Se for uma política marcante da oposição, não há a mínima chance de continuação, mesmo se a política estiver funcionando e dando resultados para o povo – Considero isso uma baita idiotice, já que o ego político nunca pode ficar na gente do que o atendimento à população. Nunca que o Bolsonaro, por exemplo, iria dar continuidade ao bolsa família, ciência sem fronteiras etc.


Atuando no Governo Estadual durante 3 ocasiões e gestões (governadores) diferentes eu percebi que há uma constante troca de secretários por meras questão do jogo político, sem considerações técnicas.


Quando os novos secretários chegam, eles começam, propositalmente, todo o trabalho do zero, sem considerar o que foi feito pela equipe passada (nem mesmo os pontos positivos que ocorreram) e até possuem a prática comum de exonerar todo mundo dos cargos de confiança já que não fazem parte do seu grupo político. Se existir um técnico supercompetente que gostaria de ficar para poder dar continuidade ao seu trabalho e tocar com qualidade determinada ação, não há vontade de mantê-lo só por mera politicagem – “como assim eu vou valorizar alguém que não é do meu grupo, mesmo que essa pessoa seja mais competente do que as pessoas que estão comigo eu preciso tirar ela daqui, já que ela estava na outra gestão”.


Já vi acontecer o contrário também. Um prefeito que perdeu a eleição simplesmente apagar todos os arquivos de sua gestão e ainda levar a chave da prefeitura. Ainda me contaram que isso é mais normal do que a gente acha. Nesse caso essas pessoas tinham que ser presas.


Tendo entendido esse contexto eu faço uma pergunta muito simples:


Você acredita que os governos conseguirão planejar no longo prazo se os líderes continuarem tendo essa visão?


É aí que está o grande problema. SEMPRE há uma visão imediatista e com o foco nas ações políticas relacionadas para a próxima eleição. Falando de uma instituição com o alto grau de complexidade e desafio em sua construção não há como pensar apenas em planejamento de 4 em 4 anos. Instituições com esse nível de responsabilidades precisam pensar em planejar os próximos 10, 15, 20 anos... Até mais. Mas, infelizmente, impera o imediatismo.

Uma campanha eleitoral começa a mais ou menos 2 anos antes das eleições. Os políticos eleitos começam a focar no que irá dar mais resultado no curto prazo em detrimento das ações mais complexas, que iriam melhorar as ações do governo com o passar do tempo.


A lógica é a seguinte: “Se não der resultado logo, se eu não usar a máquina para fazer política, eu vou acabar perdendo a eleição. Portanto, irei focar naquilo que irá me dar esse retorno imediato”.


Lembro de um gestor super preocupado uma vez quando a oposição estava para ganhar e ele tinha como certo que o planejamento estratégico para os próximos 30 anos, que foi feito em sua prefeitura com muito empenho e gastou muito recursos para ser feito, seria jogado no lixo pelo sucessor do prefeito que chegaria. – Foi o que aconteceu.


Como que os gestores dos cargos efetivos conseguem atuar em um ambiente tão incerto como esse?


Fica praticamente impossível se motivar tendo essas situações como o padrão de fazer gestão. É muito triste. Imagina quantos excelentes profissionais viram seu trabalho e dedicação de meses e anos ser jogado no lixo por conta dessas alternâncias políticas com foco eleitoral. Depois reclamam que servidor público é desmotivado. Isso desmotiva mesmo. Não há por exemplo uma política de valorização e compartilhamento do conhecimento interno no Governo do Estado do Rio. Todo político novo que assume um cargo do alto escalão não se importa em nem quer entender sobre o corpo técnico atual. O importante é nomear membros do seu grupo político e fazer as ações para o seu fortalecimento político.


No meu caso, por exemplo, o governador fez diversas alterações em suas secretarias para planejar as próximas eleições. Eu estava em cargo técnico e sem vínculo político. O meu trabalho realizado já estava mostrando um grande avanço para o desafio apresentado, mas isso não foi considerado. Fui exonerado sem nem mesmo a equipe nova buscar entender o que eu fazia. Já que eu não era do grupo político deles eu era DESCARTAVEL. E assim foi feito... Me descartaram. Fui exonerado por telefone enquanto estava indo para o trabalho.


O software que construí era tão complexo que eu tinha certeza que não seria tocado pela nova equipe, que inclusive precisava dar continuidade nessa ação por conta de ser uma ação prioritária para o governador. Eles, como esperado, começaram tudo do zero e não avançaram muito até agora.


Eu fiz questão de convocar uma reunião com a nova equipe para pelo menos entregar o que eu havia feito (nem isso me pediram). Eu achava super injusto o governo ter me contratado e eu nem entregar o que eu fiz durante alguns meses de trabalho. Já que a gestão nova não me solicitou eu fui lá entregar. Faz parte de minha ética de trabalho. Mas, eu já sabia que não iam usar aquilo para nada.


Enfim, busquei exemplificar o que ocorreu comigo recentemente e tem muito mais histórias como essas. Em minha análise, acredito que essa politicagem atrapalha muito na evolução de nossos governos.


Espero ver candidatos que falam em trabalho no longo prazo, em valorização do conhecimento interno e em pouca descontinuidade nos projetos em ação. Se a gente consegue ficar um tempo com estabilidade (sem mil troca de secretários) e tem a chance de planejar no médio e longo prazo, valorizando os profissionais sem olhar pela questão política e focar na questão técnica, acredito que muita coisa irá melhorar.

Enfim, acabei até escrevendo mais que o planejado. Obrigado se leu até aqui =)


O que você acha disso? Já viu uma grande descontinuidade dessa acontecer? Quais outros problemas isso gera para nosso Brasil?


No futuro, penso em escrever minhas experiências de forma detalhada. Sempre vale registrar o conhecimento para a gente poder refletir e poder fazer diferente no futuro.

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